terça-feira, 25 de novembro de 2014

Racionais MC's - Cores e Valore$ (São Paulo, SP, Brasil. 2014)


O dia 25 de novembro de 2014 ficará marcado na história do Rap Nacional. O que se seguirá daqui em diante? Não sabemos e não temos condições de prever. Mas é fato consumado que eles voltaram, que eles retornaram, e que eles - neste exato momento - estão causando um alvoroço tanto no mundo virtual quanto no mundo físico. Uma mistura de sensações. Angústia, dúvida, enigma, tristeza, alegria, raiva, amor e ódio dominam não apenas o mais novo trabalho dos Racionais MC's, Cores & Valores, como dominam as análises e percepções deste trabalho disponível - por enquanto apenas no Play Store do Google.

Pensei e repensei antes de escrever esta análise. O faço não apenas pela turbulência da obra, que consegue te levar às profundezas dos sentimentos, como pelo apego à música. Mesmo sendo uma pessoa diametralmente antagônica às ideologias (imutáveis) do grupo. Isto mesmo, o Racionais não mudou a sua ideologia e suas percepções de mundo. Apenas se adaptaram à realidade corrente, algo extremamente natural para qualquer ser humano. Eles continuam os mesmos. Mas com uma formatação diferente, uma lataria nova, um motor renovado e equipado. O impacto que este trabalho causará na música nacional, no rap nacional, e também na política... Será de uma imersão completamente profunda. Mas antes disso, vamos a uma breve análise.


2002-2014 - 
DO G-FUNK AO TRAP, 
DA ESPERANÇA A ANGÚSTIA


 Muitas coisas aconteceram de 2002 até esta corrente data. De um sujeito de 17 anos de idade, adolescente, cheio de esperanças, me tornei um homem de 29 anos, casado e pai de família. As mesmas mudanças ocorreram no Rap Nacional. Quando o Racionais lançou seu aclamado duplo "Nada Como Um Dia Após O Outro", eles conseguiram trazer o G-Funk californiano pra mesa brasileira com uma formatação então nova, arrebatadora, com graves lúcidos e guitarras funkadélicas, tendo como pano de fundo uma São Paulo já caótica pela violência e um Rap Nacional cheio de esperanças. Eram os tempos da Golden Era. Grandes grupos e MC's dominavam o cenário, a MTV conseguia canalizar todo o potencial do movimento, haviam as rádios comunitárias e independentes divulgando os volumes de trabalhos sonoros, e as galerias viviam entupidas. Roupas, trejeitos, "galerões" de vila indo pra shows do RZO em pleno domingo à tarde. O ano de 2002 levava consigo uma esperança no ar - Sabotage e suas músicas retratavam com precisão esta atmosfera, que tinha no pano de fundo um governo federal tucano desgastado e a vontade por mudanças.

Hoje, o que temos no tempo presente é a velocidade da internet - já popularizada no país - enquanto uma das ferramentas principais da comunicação. Canais de TV aberta sofrem entre altos e baixas audiências, as rádios já não possuem o mesmo impacto de antes. O Rap se transformou completamente. Das calças largas, timberlands, all-stars, regatas e camisas largas; a juventude opta por roupas coloridas e mais curtas. A MTV Brasil acabou e deu lugar a uma outra, dirigida internacionalmente. O Funk e a ostentação de bens valiosos tomaram conta das periferias e substituíram o que antes era dominado e alternado entre o Rap Nacional e o Axé. Dentro do Hip-Hop, o Trap é o novo embalo, uma espécie de continuação do Dirty South instrumental, e as grandes vozes do momento são Emicida, Rashid, Karol Koncá, Criolo, DBS Gordão Chefe, entre outros. O Brasil vive um momento político delicado e duvidoso, um futuro negro por estar rachado ao meio entre Direita e Esquerda. As instituições federais vivem contínuas crises de corrupções, assim como a Polícia Militar vive uma crise de imagem desgastada pelo país afora, algo fruto das inúmeras denúncias. O país também discute pautas que não eram prioridades há até 10 anos atrás, e a turbulência das vozes discordantes entre si causam um verdadeiro caldeirão infernal de opiniões, agressões, inimizades, além de passeatas e tomadas de ruas.

Muito tempo se passou. Acerca dos Racionais, de lá pra cá testemunhamos e ouvimos muitas coisas. Algumas verdades e algumas inverdades. Que Dr.Dre produziria o novo álbum, que a Nike os patrocinaria, que eles estariam brigados com o Trilha, que eles estariam dispostos a irem a Globo. Ainda que tenham lançado músicas soltas, como "Tá Na Chuva" (2008) e Mulher Elétrica (2008), a verdade é que vimos uma valorização cada vez mais contínua do grupo (já que os carros nas quebradas ainda botam o Nada Como Um Dia Após O Outro no último volume) e uma abertura gradual a entrevistas.

Ao dormir com o lançamento do álbum Nada Como Um Dia Após O Outro e acordar com Cores & Valores, a sensação é de não acreditar no que aconteceu com o país, e esta sensação casa com as nuances mais dramáticas e cáusticas do álbum. Como também casa com a vontade de ouvir a opinião deles. O que Racionais teria a dizer?


O ÁLBUM

01. Cores e Valores

Faixa virtual de 1 minuto que pode servir como prévia. Estas faixas são uma constante ao longo do álbum disponível no Google Play, e por isso a sensação de enigma para aguardar o álbum físico (CD) que pode vir com surpresas. O instrumental é um Dirty South em tempo lento, percebe-se a maturidade na voz do Brown e a letra explora mais daquela visão do grupo acerca do orgulho negro, e... acaba.

E aê...?!

02. Somos o Que Somos

Excelente instrumental, na voz de Ice Blue. Nuance e atmosfera completamente sombrias nesta faixa de 1 minuto. A letra intercala a questão das cores, da pele e do dinheiro, com as cores de ambientação numa paisagem caótica de violência e ambição.


03. Cores e Valores (Preto e Amarelo)

Outro ótimo instrumental, com o que parece ser uma guitarra em loop. O BPM é o mesmo repetido das duas iniciais e Ice Blue canta com uma voz distorcida, abafada. Mais uma curta. Talvez as três primeiras aqui sejam uma música só: Cores & Valores.

04. Trilha
 
25 segundos.


05. Eu Te Disse

A esta altura você começa a se lembrar de 50 Cent, G-Unit e adjacentes. Mais uma enigmática faixa, com uma letra que pode ser uma continuação mais brutal de "Estilo Cachorro".

06. Preto Zica

Mano Brown pega a gíria corrente das quebradas paulistas (Zika!) e constrói mais uma ambientação nebulosa, soturna, num slow tempo gangueiro e funkadélico. Possui 2 minutos. Agora é a vez de Edi Rock - com uma voz também diferente - mostrar o seu lirismo. Essa vai rodar nos carros, não tenho dúvidas.

07. Cores e Valores (Finado Neguin)

Já é a sétima faixa do álbum, e até aqui a atmosfera do álbum já se enquadra numa São Paulo onde não existiria nem sol, tamanha as nuances mais obscuras dos instrumentais. Desta vez, temos um Trap, bem produzido e mixado. Brown mais uma vez descreve relações entre cores esparsas, utiliza de metáforas nebulosas, e descreve um pouco do Finado Neguinho numa situação de plano estratégico com final tenso. Tem dois minutos.

08. Eu Compro (Part. Helião)
Vai dar (e já está dando) o que falar. Pura ostentação e descreve a ambição de se torrar toda a grana em cordões de ouro, motos, Porsches, mansões, roupas boas; mas naquela ideologia de que "negros não valiam nada" e "hoje valem". Pelo menos é essa a minha percepção inicial da música. Conta com participação do Hélião (RZO), e vem pra fazer a frente nos bailes. É o que vai rodar, portanto anotem desde já.

09. A Escolha Que eu Fiz

A segunda de Edi Rock e até aqui é a mais DESESPERANTE do álbum, ao descrever um assalto. Angustiante, causa frio na barriga, causa arrepio na espinha. Racionais voltou. E ela termina pra dar sequência imediata ao...

10. A Praça

... TERROR. Sem dúvidas não sobreviverei a este álbum. A faixa dez mostra o ponto de vista de alguém no meio do público (Edi Rock) tentando escapar da guerra que se tornou o show dos Racionais na Virada Cultural de São Paulo, em 2007. É a primeira vez que o grupo se pronuncia acerca do ocorrido, e já me sinto sem fôlego na garganta. A música curta, mas que te sequestra às profundezas dos sentimentos, conta com interpolações das matérias televisivas da época...

11. O Mau e o Bem

... E abre passagem para o Mau e o Bem. Quando o sintetizador abriu esta música, e entrou com o refrão cantado, já não consegui segurar a "água nos olhos". É inacreditável o que estes caras fizeram. Edi Rock continua com a posse de bola, e te resgata do inferno, da angústia, do terror das faixas anteriores pra te dar um ar a respirar, uma luz a te guiar e uma esperança a te confortar, debaixo de um céu azul. Inacreditável. Música que mexe com o coração e a alma com um instrumental que mescla G-Funk com Trap. Um álbum que intercala as passagens, que elabora uma narrativa em cima da outra em continuidade, que te dá um escapismo da sua realidade presente e entender ser a mesma deles. A melhor do álbum. Sem dúvidas.

12. Você Me Deve

A primeira mais animada e mais positiva do álbum. Entendem a continuação? Esta música lembra as boas sonzeiras do "Pregador Luo", mescla um pouco da sonoridade 4 por 4 nova-iorquina com bons samples. O único destaque negativo vai para os "coxinhas de VW Santana" (VW Santana apavora, porra!). Ótima faixa. E o Brown com uma levada completamente rejuvenescida.

13. Quanto Vale o Show?

Em entrevista à Rolling Stone, no ano de 2009, o Mano Brown já havia falado sobre a intenção de fazer esta música: "alguma coisa estilo Rocky Balboa". Eis que ele pegou o sample da "Gonna Fly Now", o clássico de Balboa e a trilha sonora oficial da superação, para fazer uma música nesta temática. Refrão de Sílvio Santos. Quanto vale?

14. Coração Barrabaz

Poucos vão entender esta faixa. É muito provável que ela faça homenagem às versões "Screwed", criadas pelo finado DJ Screw, que desaceleravam as vozes - transformando-nas em demoníacas - assim como desaceleravam os intrumentais, prática esta que ganhou notoriedade no sul dos EUA nos Anos 90.

15. Eu te Proponho

O álbum finaliza com um belo funk-soul romântico em dualidade com uma ambientação novamente mais soturna, e nova-iorquina. A primeira te conduz a um jardim de paz, com uma mulher maravilhosa. Um escapismo, uma fuga da realidade sufocante, e um aprendizado sobre como fazer música romântica. A segunda, já leva ao escuro, ao quarto, você com sua dama, naquela pegada mais nervosa - vigiado por Federais e policiais.

O Brown tem completo dom para realizar estes tipos de música, conforme já demonstrou em Mulher Elétrica. E quer saber? Torço para que ele também invista mais neste caminho. Amor é bom, romance é bom, e nada melhor do que... Fugirmos deste lugar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Precisa de mais? É possível prever que este álbum cause impacto aos anos futuros, especialmente dentro do quadrante do Rap Nacional. Caso sua versão física em compact disc mantenha as faixas nos tempos em que estão - variando de 1 a 3 minutos no máximo - pode ser possível que isso se reflita na maneira mais objetiva e direta com a qual os grupos e mc's façam suas novas músicas, também curtas. A certeza situa-se no campo instrumental e temático. Ao desbravar temas românticos e de ostentação, o Racionais pode estar destrinchando novos caminhos dentro do Rap. Ao inovar a forma musical gangsta, o Racionais também pode estar dando um direcionamento aos grupos do gênero, que possam sair do esquadro atual mais sangrento e aderirem às novas formatações, sem necessariamente perder o conteúdo essencial.

A resposta efetiva destas dúvidas e enigmas? 

Quem sabe daqui 12 anos....

Aqui, a versão completa disponível em You Tube:


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Solo Atalanta... e Mentalità!


MENTALIDADE. Os ultras da Atalanta são um dos últimos pontos resistentes da vecchia mentalità. Neste vídeo épico, você poderá conferir em mais de 40 minutos, as inúmeras situações em que um torcedor de verdade se encontra. Viagens, bebedeiras, brigas, protestos... Sob uma trilha sonora impecável diante de uma espécie de "mini-documentário", os Nomadi e Brigate nos dão uma verdadeira aula sobre a Mentalidade Ultras. Em tempos tão decrépitos de opressão sistemática e inflação nos preços dos ingressos é justamente  neles em que podemos encontrar a fonte de inspiração, com muito Rock 'n' Roll, viagens, stricioni e cervejas. Confira!


Ultras...
Ultime bandiere 
In un mondo senza piu' dignita'

(Nomadi Atalanta/BRN, 2003/2004)


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

2Pac - Me Against The World (14 de Março de 1995. EUA)

Confessions of a rapper who done wrong


"Confissões de um rapper que errou". Assim abre o artigo do New York Times de 9 de abril de 1995 sobre o terceiro disco solo de Tupac Shakur, utilizando uma das sínteses mais profundas que já li acerca do álbum. Quando li este título saltando da edição do jornal, no documentário Tupac Ressurection; meus olhos marejaram na hora. Em uma frase, o turbilhão de memórias e sentimentos afogados vieram como um tsunami na garganta. Não deu. Não pude conter. Trata-se da ligação umbilical que tenho com este disco, com este ano, com as músicas de Shakur, com meu filho nascendo na mesma data 18 anos depois, e é sobre "estas coisas no porão" que iremos falar aqui nesta resenha. 

Após o lançamento do álbum Thug Life: Volume 1, em setembro de 1994, Tupac Shakur viu sua vida afundar em poucos meses. Com as vendas em baixa da coletânea e sem dinheiro na conta, Shakur se via obrigado a frequentar a cidade de Nova York em busca de alguns trocados que vinham com as participações em músicas que ele fazia. Em uma dessas noitadas, cercado de amigos (que não eram amigos), Tupac conheceu uma mulher em uma boate. Fizeram sexo oral e novamente, alguns dias depois, ela foi convidada a ficar no quarto de hotel de Tupac onde ele estava hospedado. Shakur pegou no sono, e quando acordou, viu ela gritando e berrando que ele e seus amigos todos iriam pagar por isso. A mulher, que até hoje tem sua identidade preservada, processou Tupac Shakur por abuso sexual. Então, ocorreu em novembro de 1994 um julgamento tenso, levado à cabo em dias intermináveis. Tupac tinha um histórico de processos conturbado, e este julgamento poderia levá-lo a uma pena maior em relação às outras sentenças.

Pra piorar, no dia 30 de novembro de 1994 - um dia antes do veredito da sentença acerca do julgamento de abuso sexual - Tupac foi ao Quad Studios, em Manhattan, no centro de Nova York. Ele havia sido chamado para gravar uma participação. No saguão do prédio enquanto esperava o elevador, Tupac levou 5 tiros e teve suas jóias roubadas - enquanto seu Rolex ficou intacto no pulso. Segundo o filme Notorious, o jovem Lil' Cease do Junior M.A.F.I.A desceu de elevador em direção ao saguão e viu Tupac sendo atacado, por dois homens vestidos com casacos camuflados de exército - moda característica do bairro Brooklyn. Voltou ao estúdio (que ficava em um dos andares acima) para alertar Biggie e os demais sobre a situação. Biggie desceu armado e não encontrou ninguém no local, enquanto Tupac completamente abatido e ensanguentado conseguiu pegar o elevador e subir ao estúdio. De lá, ele saiu ainda consciente pro hospital, de onde teve que fugir após ser novamente ameaçado por telefone.

O ataque no Quad Studios não impediu tampouco comoveu o juri sobre Tupac. Sentado em uma cadeira de rodas, Tupac é sentenciado a 4 anos e meio de prisão por abuso sexual. Detido, em fevereiro ele foi transferido a um presídio de segurança máxima, onde ficaria pelos próximos 9 meses.

Ambos os casos do tiroteio e do abuso sexual são complexos. Em entrevista à revista Vibe Magazine de abril de 1995, Tupac esclarece os fatos do seu ponto-de-vista. Nela, ele já acusa Biggie, Puffy e o resto da equipe por não atendimento e não importância com os tiros que ele havia acabado de levar no saguão. Também fala sobre o caso de abuso sexual, onde nega envolvimento, e fala sobre sua jornada na cadeia. Velhos hábitos sendo rompidos e o começo de uma nova e difícil jornada. Tupac também acusaria, meses mais tarde, Jimmy Henchman, um dos produtores ligados à Puff Daddy por ter armado o ataque no Quad Studios. Um covarde Henchman assumiu a autoria, muitos anos depois - quando 2Pac e Biggie já não estavam mais entre nós havia tempos - e atualmente cumpre prisão perpétua por tráfico de drogas. (Em outro ponto ainda republicarei esta entrevista da VIBE que tenho traduzida em mãos, assim como voltarei a falar sobre o covarde filho-duma-rampeira Henchman, mas vamos nos ater por enquanto ao álbum).

Era um novo e tenebroso começo na vida de Tupac Shakur, que já havia sido reiniciada e reprogramada há pouco tempo antes, com pouco dinheiro, amigos desleais, e a necessidade de se afastar (mas sem conseguir) das energias negativas dos bastidores da indústria, como o excesso de consumo de
drogas ou álcool.

ME AGAINST THE WORLD - CENÁRIO E CONCEITOS - SOLIDÃO TURBULENTA

"Foi como um disco de blues. Foi um trabalho introspectivo. Foram todos os meus medos, todas as coisas que me faziam perder o sono. Todos achavam que eu estava vivendo muito bem, e indo tão bem, que eu precisei desabafar. E foi preciso um álbum inteiro pra colocar pra fora. Precisei contar meus pensamentos mais profundos, meus segredos mais obscuros, meus problemas pessoais" 
- Tupac Shakur

Basicamente, o Me Against The World é um trabalho que compreende uma série de músicas não utilizadas durante a "Era Thug Life", que combinadas, criaram a maior consistência que Shakur teria em todos os seus álbuns. A solidez edificada em Me Against The World é suficiente para colocá-lo enqua
nto um dos maiores álbuns da história do Hip-Hop. Certamente Tupac reservou suas melhores gravações de 1993 e 1994 para este álbum, que deu a face, o rosto, o esqueleto e o corpo musical do ano de 1995. Este trabalho sem dúvidas ajudou a puxar todos os demais álbuns lançados a um nível que jamais iremos ver novamente. Se 1995 foi um ano tão especial, devemos considerar no topo do Everast o álbum Me Against The World.

Tony Pizarro (que havia trabalhado com o rapper blood Sinister, de Los Angeles); Easy Moe Bee, Shock G, Jhonny J, Soulshock e demais produtores ajudaram - cada um em seu canto - a dar vida a este trabalho demasiadamente introspectivo. Me Against The World é o primeiro de três álbuns até hoje debatidos em rodas de conversa sobre qual foi o melhor da carreira de Tupac. Com um campo lírico poético, amargurado, por vezes sombrio e triste, por vezes saudosista, o álbum parece ganhar uma "calma fatal com timbre comercial", diz o artigo do New York Times. Mais do que isso, ele ganha ao focar na dificuldade da sobrevivência urbana, na paranoia, na fuga constante, no desejo de morrer, nas lágrimas da solidão angustiante, nos erros, nos arrependimentos, nos escapes do inferno das ruas com os toques românticos - ainda recheados com uma certa preocupação perturbante e distante ao fundo, como em Temptations. Me Against The World é mais do que um álbum, é um tsunami de sentimentos ocultos, uma ilha de depressões, angústias, pânicos, saudades e momentos bons, recheados pelo melhor dos instrumentais de uma época do hip-hop demarcada por sintetizadores, linhas constantes de baixo e ritmos compostos pela calmaria fatal.

Enquanto a revista The Source pareceu evasiva em abordar o Me Against The World com apenas 4 microfones, ela constatou que "liricamente Tupac nunca foi mediano, mas desta vez sua raiva, seu amor e sua filosofia Thug Life estão mais fortes". Jon Pareles chamou Tupac de "Santo Agostinho do Gangsta Rap", no New York Times, pela sua ambivalência em conseguir retratar o estilo de vida gangsta. E não apenas nestes meios, como principalmente nas ruas e na crítica especializada do hip-hop, o Me Against The World teve efeitos positivos e ótima recepção. Foi o último álbum denso e com um contexto poético, de auto-reclusão e reflexões mais profundas lançado ainda em vida por 2Pac. E seria o canal necessário a estabelecer a ponte definitiva que o faria ganhar milhões, meses mais tarde.

Mesmo preso, nada poderia parar 2Pac, que enquanto refletia ou lia certas obras na cela, ao mesmo tempo via seu álbum estourar no topo dos charts e estabelecer novos padrões musicais para o jogo do rap, no ano mágico de 1995.



01. Intro

É tarefa árdua fazer o ouvinte gostar de Introduções. Geralmente elas vem acompanhadas da necessidade de "encher-lingüiça" em um álbum, sendo em raros casos bem aproveitadas. Me Against The World é um destes raros casos. O ouvinte é imediatamente conduzido a uma batida hipnótica e gangueira de Tony Pizarro, enquanto notícias de telejornais informam que Tupac foi baleado e conduzido ao Bellevue Hospital, em Nova York. O clima conjunto dá a primeira e nítida impressão do álbum: "a coward dies a thousand deaths, a soldier dies but once", ou "um covarde morre mil mortes, um soldado morre, mas uma vez"

02. If I Die 2Nite

PANCADA! A primeira música é uma tijolada instrumental fornecida por Easy Moe Bee. Sampleando o clássico Deep Cover, de Dr.Dre, nos refrões, Tupac fornece a primeira imersão às profundezas temáticas do álbum, sobre sua ânsia em morrer, seu medo de morrer, seu temor de não passar da próxima noite. Romanceando a expectativa inicial, Tupac passa a relatar suas paranoias mescladas com a árdua sobrevivência das ruas. É este o tipo de profundidade a qual me referia nas resenhas de seus álbuns anteriores. Tupac havia chegado num ponto tão denso de si próprio, que todos os seus sentimentos passaram a transbordar em forma de rimas nas músicas, e delas... Passaram a inundar os ouvintes que viviam e sentiam as mesmas angústias. A forma como ele trabalha em ambivalência, mesclando temáticas corriqueiras do Gangsta com os sentimentos da auto-reclusão de sua persona mostram o tipo de exemplo sobre o quão ele estava há frente de seu tempo.

03. Me Against The World

CLÁSSICO! FODA! MUITO FODA! MUITO, MUITO FODA! Quando ouvi esta música pela primeira vez na década de 90 - graças ao filme dos Bad Boys - eu simplesmente não pude acreditar. Se o filme fosse transmitido na televisão, eu o assistia só pela música que tocava em uma das cenas. Mais tarde, já no início da adolescência, consegui a música (gravada) que me fez passar noites e mais noites ouvindo, até que enfim, consegui o álbum completo. A produção fornecida por Soulshock é nada mais, nada menos, que brilhante. Ela mescla o teor musical nova-iorquino (a batida em 4x4 e as notas graves) com fortes nuances do G-Funk californiano (as linhas agudas do refrão, as sinetas e sintetizadores), em um equilíbrio muito raro de se encontrar quando essa mistura acontece.

No campo lírico, você vai presenciar o melhor de Tupac Shakur. Em 4 minutos e meio, ele consegue trabalhar a luta contra o mundo, o sufoco cotidiano, os problemas políticos, as mentiras, a perda da inocência, a sensação de que o fim será eminente, a luta constante, a não desistência, e os mistura todos em versos poéticos e catalizadores para te fornecer uma música MOTIVACIONAL. Este é o Tupac motivacional em sua melhor fase; em seu "ponto alto" como ele mesmo já disse certa vez acerca do álbum. Não desperdice o tempo, relaxe seu mental e escute este som e os conselhos que Shakur tem pra você. Porque este som... É magnífico.

04. So Many Tears

CLÁSSICO DOS CLÁSSICOS! Se na faixa título que faz o conceito do álbum você tem um quadro de energia vibracional mais positiva, em So Many Tears você tem o oposto. E isso não é ruim, muito pelo contrário. Como o nome da quarta música já explica, São Muitas Lágrimas. Tupac abre seu coração, coloca numa bandeja e o serve para que você sinta sua pulsação. So Many Tears fornece um oceano de imersões, coloca a filosofia Thug Life em segundo plano para dar um panorama geral sobre sua vida. Ele volta ao passado, relembra e lamenta o passado, te mostra que suas memórias o assombram, enquanto clama por Deus, por ajuda, por alguém que o escute em uma música cuja letra soa mais como uma conversa entre ele... e o silêncio. Espetacular.

A produção instrumental é magnífica. Ela recorta e recria trechos da música That Girl, de Stevie Wonder o que fornece a cadência mais calma e pausada. É uma das faixas mais introspectivas não só do álbum, mas da carreira de Shakur.

05. Temptations

MINHA NOSSA SENHORA! Ao chegar na quinta faixa, você percebe que sofreu uma espécie de "combo-hit", música boa após música boa. Em Temptations, a dosagem certa intravenosa da mágica ocorre novamente.

Pessoalmente, gosto de citar o instrumental de Temptations enquanto uma das maiores definições sonoras da atmosfera do ano de 1995. Ele é mágico. Cada timbre, cada detalhe, cada acorde de sintetizador e até mesmo a voz do Erick Sermon sendo usada de melhor forma do que ele mesmo jamais poderia imaginar, dão esta impressão. Ele inclusive foi usado em uma cena de passagem no 8 Mile, e deu a mágica necessária que aquela cena talvez precisasse. Sem dúvidas foi a melhor criação da carreira de Easy Moe Bee, que já produziu muita pancada sonora.

Sobre a letra... Tupac fala sobre as mulheres e o calor do sexo, mas de uma maneira completamente adulta e responsável, sem pieguices ou cair no ostracismo de "pegador-que-não-pega-nem-gripe". Shakur trabalha os desejos mais ocultos, as noites mais turbulentas, o sexo mais forte; sem cair do cavalo, mantendo o nível lírico nas alturas enquanto você mesmo sonha em estar passeando no Hotel, tal qual o Coolio, ou fumando um em algum quarto aos 4:15 que nem o B-Real. ÉPICO!

06. Young Niggaz

A primeira faixa mais simples do álbum, e a partir deste ponto, elas serão mais presentes.Young Niggaz é uma música que lembra um pouco o início do "Hypy" da Bay Area, com uns baixos mais pesados e com batidas mais fortes. A síntese dela é a mais pura filosofia da Thug Life, e talvez pudesse ser usada naquela coletânea de 1994. Uma faixa simples, mas dinâmica, rápida; que volta a trabalhar um pouco das lembranças de Tupac - falando em terceira pessoa - com o crescimento em uma região pobre e o envolvimento nas atividades de gangues. Vale a pena.

07. Heavy In The Game (feat. Richie Rich)

Um dueto entre Tupac e Richie Rich pra abalar as estruturas. Sempre gostei do Richie Rich, ainda que ele fosse um rapper mais simples, de idéias mais diretas - sem se preocupar se a estrutura do verso é composta por blablabla - ele sempre teve um carisma muito bom com sua voz meio grave. Combina bastante com Tupac.

Aqui o elemento G-Funk volta a fazer presença, e talvez a única coisa chata que atrapalhe seja a participação da Lady Levi atropelando o refrão bem cantado por Eboni Foster. Lady Levi começa tagarelando em "jamaiquês" ou "ragganês" ou qualquer que seja o idioma utilizado, e repete as doses sempre que o refrão de Eboni surge. Este é o único defeito em todo o álbum. Insuficiente, entretanto, para reduzi-lo ou fazer com que ele não ganhe pontos máximos.

08. Lord Knows

ÓTIMO! SÓ DEUS SABE O QUE SE PASSA! Mais um G-Funk suave, com quês ou nuances mais tristes, onde Tupac retorna ao âmago dos sentimentos para fornecer uma das letras mais impactantes em todo o álbum. A música é uma pancada nos ouvidos e serve como o amigo para as piores horas. Tupac era esse cara. Nas suas piores horas, ele estaria lá, no seu som:

"I smoke a blunt to take the pain out / And if I wasn't high, I'd probably try to blow my brains out / I'm hopeless, they shoulda killed me as a baby / And now they got me trapped in the storm, I'm goin crazy / Forgive me; they wanna see me in my casket / and if I don't blast I'll be the victim of them bastards / I'm loosin hope, they got me stressin, can the Lord forgive me / Got the spirit of a thug in me / Another sip of that drink, this Hennesey got me queasy / Don't wanna earl, young nigga take it easy / Picture your dreams on a triple beam, and it seems / don't underestimate the power of a fiend / To my homies on the block / slangin rocks with your glocks put this tape in your box / When you're runnin from the cops -- and never look back / If they could be black, then they would switch / Open fire on them busta-ass bitches, and Lord knows"

"Eu fumo um blunt pra curar a dor / E se eu não estivesse chapado, provavelmente tentaria explodir minha cabeça / Não tenho esperanças, deveriam ter me matado quando criança / Pois agora estou preso na tempestade, Estou ficando louco / Me Perdoe; eles querem me ver em meu caixão / e se eu não trocar tiros, serei vítima dos bastardos / Estou perdendo a fé, eles me estressam, Deus me perdoe? / Tenho o espírito de um bandido em mim / Fotografe seus sonhos na balança, assim parecem reais / Nunca subestime o poder do demônio / Aos amigos da minha quadra / Vendendo pedras com suas glocks, coloquem essa fita no seu som / Quando estiverem correndo dos policiais - e jamais olhem para trás / Se eles podiam ser pretos, se tornariam brancos / E abram fogo nos filhos-da-puta, Só Deus Sabe" 

09. Dear Mama

CLÁSSICO! Dear Mama é a música que todo mundo deseja - desde 1995 - dedicar para suas respectivas mães. Tupac foi fantástico neste trabalho, cuja batida mais comercial de Tony Pizarro - novamente um G-Funk - fornece a atmosfera propícia e extremamente calma para que Tupac pudesse acalmar seus fãs com um pouco de reflexões e sentimentos puros de amor. Ame sua mãe, aproveite enquanto ela está na terra. E nós apreciamos.

10. It Ain't Easy

Essa música tem uma curiosidade nítida. No refrão, Tupac pergunta se "ele vai ver a penitenciária ou se ficará livre". Quer dizer, a não ser que ele tenha a gravado a faixa It Ain't Easy em meio às turbulências do julgamento, a resposta viria logo no início de dezembro com 11 meses de pena a cumprir. Outra parte bacana é que ele dá um salve pro seu amigo, Mike Tyson.

It Ain't Easy também reproduz certos sentimentos de So Many Tears, no sentido de ser uma das músicas em que Tupac parece estar dialogando com sua alma, transbordando mais da temática dos sentimentos profundos que este álbum tanto deixa explícito. Ótima música.

11. Can U Get Away

Mais uma faixa romântica no álbum. Tupac tenta conquistar uma garota que está presa em um relacionamento com um cara que parece mais se importar com outras mulheres do que com ela. A moça, infeliz, justifica a música inteira e fica a dúvida se 'Pac realmente conseguiu conquistar o coração da "dama triste". Parece que sim...

12. Old School

MUITO FODA! MUITO FODA! Com o sample inicial da música We Share, de Soul Searchers, Tupac recria toda a ambientação da Nova York dos anos 80, das block parties, dos b.boys, dos grupos de Rap que começaram e pavimentaram a HISTÓRIA do Hip-Hop... Para justamente contar as suas memórias. Este é mais um capítulo da imensidão nas profundezas de Tupac, onde os seus sentimentos de lembrança, de querer voltar ao passado, acabam criando uma espécie de fuga dos problemas. Caralho, que álbum fantástico.

Curiosidade: O rapper LL Cool J ficou "brabinho" por causa deste som. Tupac simplesmente homenageou este cara - que só teve alguma relevância na década de 1980 - e o cidadão me voltou com uma "diss" direcionada ao Tupac, alguns meses depois. Mas isso... Será tema de outra resenha.

13. F*** The World

Eles tentam dizer que eu não importo...
Acordei gritando FODA-SE O MUNDO!

Hahaha! Foda-se o Mundo! Precisa descrever melhor que o foda-se?

14. Death Around The Corner

Mais uma colaboração entre o produtor Jhonny J e Tupac Shakur, neste instrumental que recria trechos do filme chicano American Me. A música é dinâmica, e desta vez foca na paranoia e síndrome de pânico de um Tupac que passa o dia inteiro olhando o movimento por sua janela, ao lado de sua AK 47. A velocidade do instrumental funciona em sincronia com o tipo de ambientação criada por Shakur, nesta parceria que voltaria a render muitos frutos meses mais tarde.

15. Outlaw

O álbum finaliza com a participação do grupo Dramacydal, que daria origem aos The Outlawz. Talvez já fosse um sinal de Tupac, ou talvez ele tenha se inspirado nesta música... O fato é que é uma faixa mais diferente do restante do álbum, servindo como um G-Funk bem mais soturno e lento em relação às demais músicas. A ambientação criminal é predominante e protagoniza um bom encerramento do disco.

CONCLUSÃO e LEGADO

Lançado no dia 14 de março de 1995, o Me Against The World foi um verdadeiro fenômeno de vendas. Com cerca de 3,5 milhões de cópias nas mãos dos fãs, singles estourando nos charts e muita rotatividade nas rádios, além de três videoclipes dando o suporte necessário em canais de música, em pouco tempo o álbum estourou em primeiro no quadro dos 200 da Billboard (de 1º de abril a 28 de abril), superando o Greatest Hits de Bruce Springsteen. O Me Against The World também ajudou a pavimentar a estrutura musical dos instrumentais em 1995, colaborando para um ano mágico enquanto um dos álbuns mais consistentes da história - algo que seria recorrente ao longo do ano, com demais lançamentos.

 Enquanto seu álbum explodia em vendas, Tupac estava cumprindo pena. Inicialmente humilde, mudaria de opinião e falaria algumas verdades em entrevista à Revista VIBE de abril de 1995. Nela, acusaria Biggie e Puffy de armação do ataque no Quad Studios. Tupac também seria aconselhado por OG's de longa estrada sobre tudo o que aconteceu com ele, e teria seu mental fortalecido por livros como O Príncipe, de Niccólo Machiavelli. E de lá sairía graças a uma certa gravadora que estava também iniciando seus problemas com alguns rappers de Nova York...

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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Thug Life - Thug Life: Volume 1 (26 de setembro de 1994, EUA)



Com as últimas resenhas (aqui e aqui) vocês puderam ler e observar a vida e ascensão de Tupac Shakur, que em 1994 já era um artista bem famoso nos Estados Unidos. Além dos filmes Juice e Poetic Justice, os álbuns 2Pacalypse Now e Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z ajudaram a estabelecer Tupac enquanto um dos grandes nomes do rap, que vivenciava uma explosão de novos artistas, gêneros e criatividade na metade dos anos 90.

Entretanto, Tupac Shakur não era famoso apenas por seus trabalhos. Os problemas em que ele se envolveu - e foram muitos ao longo de 1994 - deram a Tupac uma notoriedade complexa. No começo daquele ano, 'Pac teve de cumprir 15 dias na cadeia por ter espancado um dos diretores do filme Menace II Society (Perigo Pra Sociedade, em português). O motivo aparente que o levou a agredir Allan Hughes, foi o fato que teriam prometido a Shakur um papel no filme, que acabou sendo substituído pelo rapper MC Eiht. Tupac não gostou nem um pouco de ser excluído do filme e em um encontro não planejado, acabou agredindo o diretor. Shakur também fez piadas a respeito de Allan Hughes em uma aparição no Yo! MTV Raps, no final de 1993. Justiça seja feita, Tupac nem teria o porque de ficar brabo, uma vez que ele faria o terceiro papel de sua carreira: o vilão Birdie no filme Above The Rim, que teria uma trilha sonora inteira comandada pela Death Row Records. Above The Rim foi um bom filme, mas superado pela coletânea de músicas lançadas por esta gravadora que... Viria a ser a principal parceira de Tupac em um futuro relativamente próximo.

Se por um lado, Tupac era visto com maus olhares por certos segmentos da imprensa, por outro, ele começava a ser muito querido e quisto por vários rappers e artistas. E foi nesta época entre 1993 e 1994, que Tupac acabou desenvolvendo seu projeto e movimento chamado Thug Life (Vida Bandida), que consistia em uma posse de vários rappers, entre eles Big Syke, Rated R, Macadoshis, seu irmão Mopreme Shakur (que ironicamente teve uma carreira quase nula, se comparada com Tupac) e Stretch fazendo certas participações.

THUG LIFE - CENÁRIO E CONCEITOS - A ERA PROFUNDA


Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever a "Era Thug Life" de Tupac Shakur, seria o termo "profundidade" enquanto sentimento. Esta Era é o período preferido de muitos fãs de Shakur, especialmente aqueles que gostam mais da orientação sonora nova-iorquina. Foi nesta época que Tupac começou a elaborar músicas mais profundas que conectavam a vivência das ruas com um sentimento angustiante de falta de esperanças, propícia para nuances mais depressivas em batidas mais pesadas e melhor elaboradas. Basicamente, a parte social do movimento Thug Life consistiu na elaboração de um código de conduta orientado para as gangues que controlavam os bairros pobres de cidades metrópoles (como Los Angeles) e OG's das penitenciárias. O código, que foi elaborado por Tupac em conjunto com seu padrasto Mutulu Shakur, tinha uma série de restrições que deveriam ser seguidas por estas gangues, como por exemplo, a proibição de venda de drogas em escolas ou para crianças ou mulheres grávidas, a proibição de tiroteios via carro nas comunidades, a proibição de crianças atuando no crime, entre outros. Não sei até que ponto ou altura este código foi seguido ou se ele ainda vale de alguma coisa. Mas o fato é que entre os anos de 1993 e 1994, o código da Thug Life teve importância significativa para a diminuição de uma violência já banalizada nestes bairros.

Sobre o grupo de rap - e é nele que iremos nos ater aqui nesta resenha - Tupac tinha em mente um projeto amplo, com maior versatilidade, que começaria com os nomes citados acima, podendo expandir-se mais tarde, de acordo com a necessidade do grupo. O Thug Life foi uma espécie de grupo-mais-que-grupo, contudo, o resultado final em termos de vendas não foi bom.

Desta vez, não foram os problemas extra-campo que atrapalharam o desempenho de Tupac Shakur em termos de vendas e recepção do Thug Life, mas sim, porque a Interscope Records sentiu que muitas das músicas gravadas para o álbum original - que consistia em um projeto com mais de 10 músicas - não poderiam ser veiculadas. Era uma época conturbada em que o Gangsta Rap sofria com as fortes pressões de um movimento feminista (liderado por C. Delores Tucker), dos reverendos Al Sharpton e Jesse Jackson, além dos dois partidos políticos dominantes nos Estados Unidos. Juntos, eles conseguiam mobilizar uma parcela significativa da sociedade para culpar o Gangsta Rap por toda a violência da sociedade (fenômenos que inclusive observamos hoje, em outros segmentos, mas isso é outra história). Logo, o lobby politicamente correto que as gravadoras, rádios, canais de televisão e demais sofriam era forte o suficiente para fazer recuar qualquer projeto de caráter mais... controverso.

Lançado no dia 26 de setembro de 1994, o Thug Life: Volume 1 não é o álbum original idealizado por Tupac Shakur. Mas ainda assim pode ser visto e interpretado hoje enquanto uma espécie de "melhores hits" dentro do que ele produziu especificamente para o álbum. Aqui já pode se observar uma evolução nítida, gradativa e excelente nos instrumentais - que começaram a ganhar toques significativos do estilo Californiano - sem deixar de lado a sonoridade nova-iorquina hardcore hip-hop. Significância essa que pode ser repartido entre as faixas da parte Eastside do álbum (1-5), e Westside (6-10), divisão territorial típica de Los Angeles e seus condados de entorno.


01. Bury Me a "G" (feat. Natasha Walker of Y.N.V)

ÉPICO! Com o sample da música For The Love Of You, do Isley Brothers, o grupo Thug Life começa simplesmente arrebentando as estruturas do álbum. Uma música profunda, que já mostra o niilismo comandando a temática principal através de sua natural descrença e angústia. O melhor verso e as melhores palavras pra descreverem o quanto esse som é impactante e pode fazê-lo chorar caso o ouça pela primeira vez, são justamente as 8 barras de Mopreme Shakur:

"More trouble than the average / Just made 25 and I'm living like a savage / Being a G it ain't no easy thing / Cause you could fuck around get crossed and get stucked in the game / And for the rest of your life you will sit, and reminisce / Wonder why it had to end like this / And to the G's you can feel my pain / Until the motherfucker gets borned again"

"Mais problemas que o habitual / Fiz 25 anos e ainda vivo como um selvagem / Ser gangueiro não é fácil / Pois você pode se foder, morrer e até ficar preso / E pelo resto da sua vida, se sentar e se lamentar / Se perguntar porque as coisas acabaram da pior forma / Para vocês, que sentem a mesma dor / Até que se nasça de novo"


02. Don't Get It Twisted

FODA! A única faixa sem participação de Tupac, no álbum. E... ela é maravilhosa! Por um momento, você começa a pensar que talvez a presença de Tupac tenha intimidado um pouco os participantes Macadoshis, Rated R e Mopreme nas demais músicas. Pois aqui, a sensação nítida é que eram rappers muito bons. O instrumental é maravilhoso e te lembra muito as produções clássicas do DJ Muggs, do Cypress Hill. O elemento "Costa Oeste" é massivo na parte lírica, especialmente quando Macadoshis canta com seu sotaque já característico da região, sobre a presença de assassinos no parque, OG's e as barcas, no segundo verso. Uma excelente faixa com mil utilidades.

03. Shit Don't Stop (feat. Y.N.V)

A parte funkadélica do álbum. Uma música que já contém uma pegada bem voltada pro G-Funk, onde a mescla entre dança e atividade das ruas acaba sendo nítida pela divisão entre o refrão - cantado pelas mulheres do Y.N.V. - e os versos comandados por Syke, Pac e Macadoshis.

Por sinal, há um vídeoclipe original desta música, produzido quando Tupac estava preso em 1995. Vejam a versão remixada deste clássico, com uma letra diferente, e Big Syke puxando o Thug Life:



E quero um boné desse do Dramacydal hahaha

04. Pour Out a Little Liquor

ÉPICO! Um dos dois clássicos lançados no disco. Esta música saiu a primeira vez em março de 1994, na coletânea sonora do filme Above The Rim, sendo relançada aqui. Pela primeira vez vemos o produtor de bases Jhonny J colaborar com Tupac Shakur,  e logo de imediato nesta que é uma das músicas mais famosas da carreira de Pac. O som trata basicamente sobre a morte de amigos, e sua consequente homenagem de se derramar um "gole pro chão". Se em Don't Get It Twisted ele não participou, aqui temos um "show" solo da capacidade poética afiadíssima de Shakur.

05. Stay True

ÓTIMO! Com participação de Stretch, Tupac finaliza a parte Eastside do álbum Thug Life com um G-Funk rústico e muito consistente que fala sobre a Thug Life enquanto reflexo da cultura das ruas da Califórnia, dos lowriders, jogos de dados, e um pouco de fuga dos enquadros da polícia.

06. How Long Will They Mourn Me? (feat. Nate Dogg)

GRANDE! E mais uma vez os caminhos da Death Row se cruzam com Tupac, desta vez, na figura singela do vocal Nate Dogg (R.I.P), que dá o toque necessário neste som produzido por ele próprio e Warren G. Essa música poderia ser interpretada como uma espécie de continuação de Pour Out A Little Liquor, mas mais avançada. Aqui temos novamente o G-Funk enquanto agente principal, mas o toque de BLUES que é dado nesta música - provavelmente pelas mãos de Warren G - é simplesmente impagável. O som novamente trata sobre a perda de amigos, as lágrimas e a saudade dos que ficam.

07. Under Pressure

Tupac faz um dueto com Stretch, aonde ele demonstra mais da sua profundidade neurótica e niilista em parceria criminal com Stretch, que dá resto do cabo com sua voz grave e agressiva. O instrumental não é dos meus favoritos, mas funciona bem nesta faixa que pode ser a mais obscura ou "de atividade" no álbum.

08. Street Fame

Na boa, esta música é ruim e não casa com o álbum, por mais que o nome ou parte das letras tentem dar essa continuidade. Não entendo como deixaram de lado uma Out On Bail, por exemplo, pra colocarem essa música que nada mais passa a impressão que você está preso em alguma fábrica com caldeiras derretendo aço e maquinários martelando ferro derretido em um calor industrial de 80 graus.

09. Cradle To The Grave

O G-Funk retorna (ainda bem!) para colocar todos os membros do Thug Life em linha com uma música que trabalha novamente o conceito da morte, sob o aspecto "do berço ao caixão". Não há nada de surpresa  ou relevante aqui, salvo que é uma faixa mais suave, cadenciada, que agrada bastante aos ouvidos.

10. Str8 Ballin'

Não é o clássico deste álbum, mas é uma faixa clássica na vida de Tupac, que fez outras versões adicionais com o mesmo primeiro verso desta Str8 Ballin'. É uma ótica música que funciona em sincronia aqui, e poderia funcionar muito bem no próximo disco (solo) de Shakur; encerrando o Thug Life: Volume 1 de maneira digna. Tupac vem mais uma vez em missão solo, com pitadas de humor e sarcasmo, pra falar mais sobre o Thug Life enquanto conduta de vida.

Outras versões feitas para o álbum:

- Thug Life (feat. Prince Ital e Big Syke)

- Out On Bail

- I'm Losing It (feat.Spice1)

- Is It Cool 2 Fuck? (feat. Macadoshis e Rated R)

- Runnin' From The Police (feat. Dramacydal, Notorious BIG, Stretch)

CONCLUSÃO e LEGADO

Com quase 500 mil cópias vendidas e uma certificação de disco de ouro, o Thug Life Volume 1 mostrou ter sido prejudicado pela intervenção da Interscope, uma vez que o projeto original se mostrava mais relevante e promissor em relação às 10 faixas aqui presentes. Contudo, a maneira como o álbum funciona no toca-discos é impecável. Contou com dois clássicos, três vídeoclipes, e ajudou a manter a notoriedade de Tupac Shakur, que já vivia viajando pra Nova York em busca de gravações, e consequentemente, contava com muitos amigos. De Stretch a Notorious B.I.G. O problema é que alguns amigos não se mostrariam tão amigos - pelo menos na sua percepção - e em novembro de 1994, Tupac Shakur sofreria duas viradas drásticas que moldariam sua personalidade... e o resto de sua vida.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

2Pac - Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z (Fevereiro de 1993)



Na resenha passada, vocês puderam ler o começo de vida e também de carreira do rapper Tupac Shakur. Dando continuidade ao processo, chegava o ano de 1993, onde em fevereiro, seria lançado o segundo álbum de 2Pac, chamado "Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z". Existia uma espécie de significado que circulava não só em algumas revistas de Rap aqui no Brasil, como nas páginas de 2Pac na internet há anos atrás, onde o termo "N.I.G.G.A" separado por pontos seria "Never Ignorant Getting Goals Acomplished" (Algo como "Jamais Ignorante Atingindo Objetivos"). Não sei até que ponto essa informação pode proceder aqui de acordo com este álbum, apenas item de curiosidade.

STRICTLY 4 MY N.I.G.G.A.Z
CENÁRIO E CONCEITOS - SEMENTE DA THUG LIFE

Passaram-se um ano e alguns meses do primeiro álbum solo de Tupac. Problemas com o vice-presidente americano Dan Quayle surgiram quase que imediatamente, como vocês puderam ler em 2Pacalypse Now, e por sorte divina, Quayle não se elegeu presidente nas eleições de 1992 (caso contrário, este blog seria somente sobre Cerveja & Futebol). Tupac também se envolveu em mais problemas. Um deles ocorreu em agosto de 1992, na pequena Marin City, aonde Tupac terminou sua juventude antes de iniciar sua carreira. Em um mega-evento de Rap, sem segurança ou controle algum, uma criança de 6 anos de idade foi baleada (e com isso, morta) nos arredores do evento, com o estouro de uma briga generalizada. Até o momento da confusão, Tupac tinha se apresentado e estava assinando autógrafos nos arredores do evento. Quando a briga estourou, ele portava uma Colt Mustang, a qual jogou no chão. Momentos depois, no meio da multidão ocorreram disparos, dos quais um deles acertou a criança nos arredores do festival. As acusações recaíram imediatamente sobre Tupac, em que ele teria puxado o gatilho. A informação foi desmentida por testemunhas. A polícia inicialmente também constatou que a criança foi atingida por uma bala de revólver 38, e que este revólver seria a Colt de Tupac Shakur - informação que os advogados tentaram desmentir. O caso foi a julgamento e teve envolvimento do departamento de investigações da polícia. Tupac acertou em dar cerca de 500 mil dólares aos pais da criança, os maiores prejudicados do incidente.

O fato é que o evento de Marin City foi grave. Tupac negava o envolvimento na morte da criança (o que era óbvio, ele jamais faria isso), mas a culpa recaía sobre ele por causa da balística feita às pressas e de sua... Fama. O caso - que era delicado e muito complexo - acabou sendo resolvido em 1995, onde novas provas de balística da polícia constataram que o disparo que matou a criança não veio do revólver de Shakur, mas sim, de outro elemento. O problema é que estas provas viriam somente três anos depois do incidente, e até lá... A tragédia de Marin City marcaria a persona de Tupac, que já estava sendo acusado pelos moradores da cidade enquanto "vendido" e "arrogante", por culpa do sucesso. Shakur também se envolveu em uma briga em abril de 1993, quando perseguiu um rapper do desconhecido grupo M.A.D com um taco de baseball.

Podemos puxar a seguinte conexão, que é relatada no documentário Tupac Ressurection: Shakur estava embriagado de si próprio. Durante 1992-1994, ele havia realmente se engrandecido e perdido sua compostura. Se envolvia em problemas com muita facilidade, cuspia (sentido figurado) na cara das autoridades, e sentia que sua militância era capaz de mover milhares pelo país afora. Estas características causaram um reflexo direto nas músicas de Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z, onde podia-se observar um Tupac Shakur muito mais agressivo do que em seu primeiro álbum. Neste segundo trabalho, suas músicas avançaram sobriamente nos instrumentais, enquanto a parte lírica atingiu novos padrões de niilismo e descrença, com fome de mudanças e sede de se estabelecer enquanto melhor rapper do cenário. Tupac deixou o lado puro e poético um pouco de lado, para plantar aquela que seria a semente do Thug Life (Vida Bandida) no decorrer de 1993, e em 1994. A vida dura nos guetos, os bandidos sem piedade, a polícia despreparada, a falta de remorso por parte dos governantes e a consequente falta de remorsos dele com os mesmos políticos, com a rádio, a indústria musical, Dan Quayle e os críticos de uma maneira geral. Adiante, há o retorno das temáticas familiares neste álbum: o sufoco da vida de toda as mães solteiras com filhos pequenos, e a ausência ou presença tardia de pais irresponsáveis.

Outro fator importante sobre 1993. Tupac fazia sucesso não apenas por causa de seu primeiro álbum, mas também por ter feito o vilão Bishop no filme Juice, que fez muito sucesso nos EUA, ao seguir a receita de filmes como Boyz N Da Hood. Tupac voltaria às filmagens ainda naquele ano, para gravar Poetic Justice ao lado de Janet Jackson. Neste filme ele faria o papel de Lucky, um carteiro trabalhador e correto, que deveria conviver com a criminalidade dos subúrbios enquanto tentaria conquistar o coração de Justice (Janet Jackson). Em linhas gerais, Shakur crescia como um rapper sem freios na língua, ao passo em que também crescia como um ator de futuro promissor.

Bom... Voltemos ao momento. Musicalmente, o Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z trabalha com o conceito da militância, da fome por mudanças, do banditismo e da mentalidade das ruas. Por isso essa simbiose maluca pode ser considerada como a principal semente do movimento Thug Life que seria criado por ele. Os problemas sociais fazem o cenário de fundo. Nas produções instrumentais, temos Bobcat, Stretch, Big D entre outros criadores fazendo as bases "bate-cabeça". O estilo do álbum remete muito a atmosfera nova-iorquina. O disco teve músicas gravadas lá, e também em Richmond e Los Angeles (ambas na Califórnia). É o segundo trabalho seguido de Tupac a ter uma característica musical completamente oposta da mentalidade de onde ele veio. Principalmente se considerarmos que em 1993, o G-Funk já mostrava ser a nova tendência da Costa Oeste.


01. Holler if Ya' Hear Me

CLÁSSICO. Não haveria melhor maneira de começar esse álbum. A tijolada musical nos ouvidos já mostra a tendência instrumental do "bate-cabeça", enquanto Tupac injeta verbalmente suas doses homeopáticas de vândalo rueiro causador de problemas. O videoclipe também é sensacional e contribuiu massivamente para que este álbum ultrapassasse os 1 milhão de cópias vendidas (Platina), graças a sua rotação na MTV - que na época era decente. Mãos pra cima se você está lendo!

02. Pac's Theme (Interlude)

Grande interlúdio. Tupac mostra com uma vinheta de mais de 1 minuto a sua encrenca com o vice-presidente Dan Quayle. Em meio a batida "pra cima", bem combinada com os pianos utilizados, você ouve Quayle dizendo que "não existe lugar para um álbum assim em nossa sociedade", enquanto Tupac replica "Eu nasci nesta sociedade, então não há sentido você esperar que eu seja uma pessoa perfeita, eu faço o que eu faço. Faço o que eu gosto, não sou exemplo de conduta".

Ambos os diálogos se intercalam e se revezam, produzindo uma ótima passagem entre-músicas.

03. Point the Finga

A produção é simples, sem muitas características, mas a letra é boa. Tupac separa a temática em duas partes. Primeiro ele descreve seus problemas com a mídia e a indústria musical. Depois descreve seus problemas com os invejosos ao seu redor. Em resumo, ele fala sobre a ganância que aponta o dedo e julga. Vale a pena dar uma conferida.

04. Something 2 Die 4 (Interlude)

Vinheta porre e sem necessidade. Caberia tranquilamente uma música no lugar dela.

05. Last Wordz (Feat Ice Cube & Ice-T)

Naquela época, Ice-T e Ice Cube faziam parte dos grandes nomes do Hip-Hop, então podemos dizer que é uma colaboração e tanto com 2Pac. O instrumental é simples, rápido, pra cima, e a letra não tem muitas novidades além de ser uma mescla entre as temáticas já recorrentes do álbum. Não é a melhor música do Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z, mas vale uma passagem nos fones.

06. Souljah's Revenge

Tupac conversa com sua alma - que tem a voz reduzida no pitch pra parecer o bom e velho "Demo-Demorô" - nesta música que já soa bem melhor. É um diálogo introspectivo que leva o ouvinte a interpretar a falta de paz nas ruas.

07. Peep Game (Feat Deadly Threat)

A esta altura o álbum já parecia uma espécie de "Onyx", com tantos bate-cabeças. E isso não é ruim, se você considerar colocá-lo em algum aparelho de som potente. O interessante aqui é que ele volta a usar o método do diálogo da música anterior, desta vez com o (desconhecido) rapper Deadly Threat. A música trata sobre o jogo do rap e da vida, considerando o cenário de fundo, que são os problemas em que Tupac se envolveu, tanto com o vice-presidente, quanto a mídia.

08. Strugglin' (Feat Live Squad)

Com participação dominante do Live Squad (2Pac apenas canta 18 barras), essa música soa como uma espécie de versão "pré-Ragga" do gênero de mesmo nome. Sem maiores novidades na letra, que fala sobre as dificuldades correntes enquanto tema central e geral, e isso envolve a boa e velha periferia.

09. Guess Who's Back

O começo desta música vai implorar pra que você mude de faixa. Seja teimoso e fique. Vale a pena dar uma conferida. É um outro bate-cabeça, onde Tupac - como se estivesse fazendo um freestyle - fala sobre o Hip-Hop, as questões envolvendo o Rap e os MC's sem talento, com pitadas de humor.

10. Representin' 93

ÉPICO! Agora o álbum começa a ficar mais interessante com uma sequência excelente de faixas, começando por esta. Com um ótimo instrumental, calmo na batida e bem recheado no baixo, Tupac divide este som em duas partes. Na primeira, ele basicamente conta sobre como está chegando no cenário e manda todo mundo se foder (Músicas pop, videos, Radio, Arsenio Hall) em troca de um salve pras cadeias. Na segunda parte, ele manda salves pra quase todos os grupos de rap, House of Pain, Cypress Hill, Digital Underground, Redman, Naughty By Nature, A Tribe Called Quest, Das EFX, EPMD, Rakim, Ice Cube, entre outros. Parece simples, mas a música é formidável e sem dúvidas é um dos grandes destaques deste álbum.

11. Keep Ya Head Up

CLÁSSICO! ÉPICO! MONUMENTAL! MONSTRO! Com um sample do som Be Alright, de Zapp, Tupac recria os anos 80 novamente em um clássico. Uma das melhores músicas de toda a sua carreira, sem dúvidas. Não tenho muitas palavras pra descrever a Keep Ya Head Up, cujo videoclipe me fez conhecer Tupac Shakur há cerca de 15/16 anos atrás. Ela é uma música extremamente motivacional, por tratar das mães solteiras e suas dificuldades. Na verdade, a motivação da música pode servir pra todos que possam estar passando por problemas, independente de mulheres ou homens. Era esse o tipo de situação que fazia Tupac se destacar dos demais.

Com um carisma inabalável e uma tranquilidade pra lá de serena, Tupac destrói neste que foi seu primeiro grande clássico sonoro.

12. Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z.

Carregando o nome-título, trata-se da segunda música mais lenta do álbum. E isso é um ponto positivo, pois sai um pouco da ambientação bate-cabeça que após certo tempo começa a enjoar. A música trabalha três pontos: novamente os ataques à polícia enquanto instituição, aos críticos e aos falsos rappers (não, não é uma diss). Ele inclusive cita as dificuldades em ser um MC, já que as músicas não pagavam as contas. Logo logo esse problema dele seria resolvido. Apesar que outros problemas viriam...

13. Streetz R Deathrow

GRANDE! Uma das melhores músicas de Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z, onde Tupac cria uma ambientação extremamente densa, de fugas, perseguições e descrenças, com boas doses de niilismo e uma sensação de que nada valeria a pena neste mundo, mas... Que você precisa lutar. Nesta música em específico pode-se dizer que Tupac já estava alcançando seu próximo nível, que era justamente o trabalho com essa falta de esperança - algo que o tornou ainda mais amado pelos fãs que se identificavam com essas questões mais profundas e psicológicas. O instrumental é perfeito e conta com samples de "You're One I Need" de Barry White e "Synthetic Substitution" de Melvin Bliss.

Curiosidade... Tupac fez esta e outra música contendo alusões sobre os corredores da morte ("Death Row"). O potencial de suas palavras era tamanho, que isso o levou a fazer certas... Profecias... E concretizá-las em seus versos.

14. I Get Around (Feat Digital Underground)

FODA! O terceiro grande single do álbum, que conta com mais um vídeo clipe. Aqui nasce o lado "cafetão" do Tupac, onde ele simplesmente brinca com as biatchs e se mostra enquanto um grande amante do sexo feminino (E quem não é?). Conta com a participação de seu mentor, Shock G, em uma batida bem legal. Certamente você já ouviu I Get Around por aí.

15. Papa'z Song (Feat Wycked)

LOUCO! A música começa com uma boa pitada de humor. Depois de anos ausente, o "papai" chega em casa, e imediatamente é replicado por um Tupac adolescente, que não aceita a presença deste "novo velho pai sumido" e prefere continuar levando a vida com sua mãe (solteira) e seu irmão mais novo. Mais uma vez Tupac fala sobre as questões familiares, o âmbito doméstico quebrado; onde quem fica tenta consertar e levar as coisas como pode. A quebra da estrutura familiar, causada pela cultura moderna das gerações atuais, se reflete diretamente em músicas como "Papa'z Song"; onde pais irresponsáveis e ausentes não tem (e nem podem ter) vez.

16. 5 Deadly Venomz (Feat Treach, Apache & Live Squad)

Com participação do Naughty By Nature, Apache e Live Squad, Tupac encerra o álbum com uma música que por fim, faz você pensar em como era o Rap há 20 anos atrás. Mais um bate-cabeça pra você tocar no último volume.

CONCLUSÃO E LEGADO

Com mais 1.600.000 cópias vendidas (Éhé bicho, me senti o Faustão escrevendo isso...) apenas nos Estados Unidos, o Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z pode ser considerado como o álbum responsável por colocar Tupac no mapa dos GRANDES rappers. Ele já não seria mais um singelo MC revelado pelo Digital Underground, e sua figura passaria a representar um simbolismo pra comunidade do Hip-Hop, que estava vivendo um grande "booom" de novos grupos e rappers. Tupac também passaria a representar uma ameaça pro governo americano, pros policiais e demais figuras da indústria com quem se envolveria futuramente. Passados alguns meses depois do lançamento de Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z, Tupac Shakur já andava bastante em Nova York - aonde gravou uma boa quantidade de músicas - e já era amigo do desconhecido Notorious B.I.G, capítulo futuro desta sequência de resenhas. Mais tarde ele estaria gravando o filme Poetic Justice com Janet Jackson, e também criaria o movimento Thug Life.

Se você não possui uma cópia, corra atrás. Se não quer gastar seu dinheiro, pelo menos baixe o álbum. Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z foi um dos grandes lançamentos de 1993 e musicalmente refletia a ambientação "hardcore", ainda capitaneada pela cultura da cidade de Nova York, com muitos sons bate-cabeças. Que falta que não faz essa pegada nos dias de hoje, hein?

Sem maiores delongas, baixe o álbum aqui se você ainda não tem ele nem em arquivo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

2Pac - 2Pacalypse Now (Baltimore/Richmond, Califórnia, EUA. 1991)

Clássico.


Alguns de vocês já devem ter reparado que até o presente momento, o maior ícone da história do Hip-Hop jamais teve um de seus trabalhos analisados por este blog. Isto posto, vamos quebrar este tabu e cairmos logo de cara em sua carreira, desde o início até os momentos finais e seus respectivos álbuns póstumos. É com a maior honra que retornarei as atividades de resenha deste blog com ninguém mais e ninguém menos que Tupac Amaru Shakur, o homem que simplesmente injetou doses intravenosas de adrenalina no Rap dos anos 90, o homem que quebrou barreiras, que estabeleceu um recorde de vendas, que foi perseguido, agredido, julgado, combatido, quase morto, preso, e acima de tudo foi o responsável por fazer coisas jamais... Feitas dentro da história da música. E que jamais serão repetidas por alguém, sem dúvidas. Um homem absurdamente fora de seu tempo, fora de seu espaço inclusive. Tupac era alguém muito a frente. Complexo demais para entendermos mesmo em 2013, e acredito que sua complexidade continuará intacta nas próximas décadas, tamanha sua obra, seu talento, seu conhecimento, seu carisma e sua profundidade em trabalhar os mais variados temas.

Trataremos de cada uma das singularidades deste homem fantástico álbum após álbum. Afinal, nada melhor que um disco lançado em determinado ano para estabelecermos o cenário de fundo, os conceitos e influências que podem nortear um trabalho musical.

Alguns de vocês já devem conhecer a história de 2Pac de "cabo à rabo". Outros, devem estar familiarizados com alguns pontos principais, e os demais podem ainda desconhecer a rica história deste homem. Tratarei aqui de alguns pontos básicos da vida de Shakur antes de seu primeiro álbum, mas o ideal é que você compre ou baixe o filme indicado ao Oscar de Melhor Documentário de 2005 "Tupac Ressurection" - onde ele conta sua vida em primeira pessoa do início ao fim. Infelizmente o documentário não ganhou o Oscar, algo injusto, mas esta obra é o Be-A-Bá básico de quem deseja conhecer a vida de Tupac Shakur a fundo.

Tupac Amaru Shakur nasceu no dia 16 de junho de 1971, em um presídio no East Harlem, em Nova York. Recebeu este nome em homenagem a um chefe-Inca chamado Túpac Amaru II, que liderou uma rebelião indígena contra o colonialismo espanhol no Peru, por volta de 1780. Túpac Amaru II acreditava ser a última descendência do líder Inca Túpac Amaru I, executado por espanhóis dois séculos antes. Justificado o nome, o sobrenome Shakur veio de sua mãe, Afeni Shakur, militante do partido dos Panteras Negras, assim como seu pai, Billy Garland. 2Pac era afilhado de outro notório militante dos Panteras, Geronimo Pratt, e teve como padrasto (mais tarde) o ativista Mutulu Shakur. Percebe-se aqui que 2Pac cresceu em um ambiente demasiadamente militante, e as influências que ele recebeu deste período o carregaram pela vida toda. Os anos 1970 foram conturbados para os Panteras Negras, que eram perseguidos pelo governo (alguns deles continuam presos até os dias de hoje) e esta falta de tranquilidade marcou a infância de Tupac.

Por volta dos 12 anos de idade, Tupac teve de deixar Nova York, onde foi criado por sua mãe, e ir com ela para a longínqua cidade de Baltimore, do outro lado dos EUA, no estado da Califórnia. Lá, Tupac conseguiu uma bolsa de estudos na particular Escola de Artes de Baltimore. Aprendeu jazz, ballet (pois é, por incrível que pareça...), e teatro. Este último aqui foi definitivo na formação de Tupac Shakur, já que ele se mostraria um excelente ator nos anos 90 com um futuro promissor. Foi também nesta escola que 2Pac começou a ter contato com obras literárias do porte de William Shakespeare, o que o diferenciava de seus colegas de vizinhança que estudavam (quando estudavam) em escolas públicas. Tupac começou a exercer um pouco de sua militância e também a cantar. Se mudou pra Marin City (ainda na Califórnia) em 1988, e foi lá que acabou sendo introduzido ao grupo de rap Digital Underground.

O Digital Underground (formado por uma boa quantidade de MC's, mas liderado pelo carismático Shock G) já era um grupo famoso no cenário e Tupac foi contratado para ser um roadie da banda. Eventualmente, Tupac ajudava o Digital Underground nas performances de palco, até que ele foi chamado para gravar a música Same Song em 1990. A música que contava com um videoclipe fez sucesso e colocou Tupac Shakur no mapa da indústria. Seu desempenho chamou a atenção, o que o levou a assinar um contrato com a Interscope Records.

2PACALYPSE NOW - CONCEITOS E CENÁRIO - A ERA MILITANTE

Tupac Shakur consegue o contrato com a Interscope e imediatamente lança seu disco solo - seu primeiro trabalho oficial - chamado 2Pacalypse Now, inspirado no filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Este é o trabalho mais militante/poético que ele iria lançar em toda a sua carreira. Ainda não havia criado a "Thug Life", tampouco havia se envolvido em confusões com outros rappers/artistas e profissionais da indústria. Este é o Tupac com seus 20 anos, cheio de vida, energia e com vontade de mudar a pobreza econômica, mental e social dos guetos americanos da geração Reagan/Bush.

Em 1991, os EUA estavam ainda imersos na questão da Guerra do Golfo. Os guetos e bairros pobres refletiam as duas décadas passadas de descaso e ausência do poder público em questões básicas como a saúde, a segurança (principalmente) e a educação. A decadência econômica tomou conta, e gangues começaram a se alastrar nas principais capitais do país. As drogas ganham um novo contexto com o crescimento da cocaína no começo dos anos 80, e a incapacidade de Reagan em resolver estas questões, tampouco lidar com elas com melhor sobriedade, causam o impacto necessário não apenas para um jovem Tupac Shakur, mas para a esfera do Hip-Hop daquela época com o surgimento de vários grupos como Boogie Down Productions, Public Enemy, N.W.A, Rakim, Kool Moe Dee, entre tantos outros.

O Rap daquele ano contou com alguns grandes álbuns que contribuiriam para um maior aprofundamento nas técnicas de produção instrumental e dos cantos, rimas e letras. Vamos listar estes aqui: Efile4zaggin (N.W.A), Naughty By Nature, The Enemy Strikes Black (Public Enemy), Cypress Hill. De todos estes lançados, o 2Pacalypse Now é um trabalho mais profundo. Tupac trata algumas questões de forma muito madura aqui: brutalidade policial, alta criminalidade, tráfico de drogas nos bairros, gravidez na adolescência, mães solteiras (temática recorrente ao longo de sua carreira), sempre na ótica da terceira pessoa. Ainda que Shakur tenha desejos positivos de mudanças do clima de tristeza nos guetos em 2Pacalypse Now, ele mostra que isto é difícil de conseguir, então tenta convencer você - ouvinte e principal interlocutor com quem ele dialoga - a mudar a si mesmo.

Com este cenário retratado em músicas mais profundas, que estabelecem a ponte entre você ouvinte e Tupac, o álbum é lançado e imediatamente rebatido em 1992 com críticas do então vice-presidente dos Estados Unidos, Dan Quayle. O político estava disputando as eleições, quando um idiota atirou em um guarda e afirmou que só fez isso inspirado na obra musical de Tupac Shakur. Quayle imediatamente pediu ao presidente da Interscope para que o álbum fosse retirado das lojas e censurado. Aqui é o primeiro problema que aparece na vida de Tupac Shakur, e logo de cara, ninguém menos que o vice-presidente do país; homem que viria a formar uma coalizão entre o Partido Republicano (conservador) com membros do Partido Democrata (liberais, entre eles a feminista C.Delorus Tucker), para perseguir não apenas nosso amigo Shakur, como todos os rappers do gênero Gangsta daquela época. Sem dúvidas um marco para a carreira de 2Pac, cuja crítica de um vice-presidente banana contribuiu para um aumento de vendas deste álbum, que... Retrata uma fase muito pura, conturbada, poética e ambiciosa de Shakur.

01 - Young Black Male

Quase uma intro, mas com qualidade. É uma música curta, com cerca de 2 minutos e meio, com boas doses de scratches. Aqui 2Pac canta com uma levada muito interessante, em fast-tempo, gênero que viria a ser dominado por rappers como Twista ou Bone Thugs~n~Harmony.

02 - Trapped

Grande sucesso, grande faixa. Aqui vemos um pouco da inspiração nova yorkina norteando seu trabalho, o estilo de instrumental que mais tarde faria o gênero do "bate-cabeça". Essa tendência será uma constante ao longo de todo o 2Pacalypse Now. A música fala sobre prisões forçadas, cadeia e abusos de poder da polícia; assim como o videoclipe.

04 - Soulja's Story

Já vou explicando de cara: não sei se Tupac teve a intenção de criar um simbolismo da palavra "soldier" (Soldado) para "Soul Ja" (alma de Jah) e assim abusar da criatividade linguística. Tenho essa dúvida porque nunca o vi falar sobre este tema em particular, e convenhamos que 2Pac não era devoto de "Jah" ou coisa que o valha, ainda que ele tivesse uma crença espiritual demonstrada em alguns de seus trabalhos. De qualquer forma, fica a dica uma vez que músicas com este termo (Soulja) se repetirão por alguns álbuns futuros.

A música é tranquila, tem um instrumental mais calmo com batida forte, baixo e pianos. O primeiro verso é cantado com o pitch da voz reduzido, o que cria aquele efeito de "voz demoníaca" (tão copiado pelo rap nacional, judiação...). Creio ter sido a primeira vez que um rapper faria algo assim em uma música, por lá. No contexto, Soulja's Story descreve a vida de um bandido de bairro que precisa se manter vivo, mesmo vendendo drogas e lidando com gangues rivais, enquanto seu irmão mais novo parece se inspirar em seus passos. Vale a pena ouvir.

04 - I Don't Give a Fuck

Mais uma música sobre abuso de poder policial. Os amigos de 2Pac ligam pra ele, contam seus problemas, e quando entra a música... 2Pac enfrenta os problemas dele e dos amigos com a polícia. É o tipo de música clássica do Pac, ele "pouco se fodendo" por "já estar fudido".

05 - Violent

Um reggae meio bate-cabeça; recheado por mais versos da vida criminal dos bairros. Musicalmente é ideal pra você ouvir no carro em alto volume, principalmente por causa da virada que o instrumental faz ao repetir várias notas de baixo, bom... Não é nada mais que isso. Era uma tendência da época essa mescla entre elementos do Reggae e do Rap... pelos rappers. Confesso não ser familiarizado com produções assim, ainda soam estranhas aos meus ouvidos. Fica a seu critério.

06 - Words of Wisdom

Tupac começa recitando uma espécie de poesia militante de rua no começo, culpando a América por todos os problemas da vida e do mundo. Aliás, outra tendência da época do final dos anos 80 e começo dos anos 90 - pelo menos até a chegada do "The Chronic", de Dr.Dre - era o discurso de ação afirmativa capitaneado por Public Enemy, Ice Cube, KRS-One e claro, 2Pac Shakur (neste álbum). A música fala sobre questões raciais, o segregacionismo e a ótica em terceira pessoa - que narra os problemas de uma outra perspectiva. Se me agrada? Não. Mas pode te agradar.

Pelo menos aqui 2Pac não mete o pau nos brancos, judeus, coreanos e cristãos do universo, ao contrário do piá-de-prédio "O'Shea" em sua fase de extremismo (nada) religioso.

07 - Something Wicked

Outra música curta de 2 minutos e meio onde Pac nos mostra uma levada acelerada. A música é isso mesmo, "Algo Louco".

08 - Crooked Ass Nigga

Sampleando N.W.A e cantando com Stretch, Tupac pela primera vez faz uma música com um teor mais característico da Costa Oeste (Califórnia). A esta altura do campeonato, os policiais americanos já deveriam estar putos, pois é uma música que joga (de novo!) na cara deles os problemas da corporação. Desta vez... Policiais corruptos. Se fosse no Brasil, provavelmente 'Pac não teria passado do primeiro álbum. Ainda bem que ele nasceu lá!

09 - If My Home Calls

ESPETACULAR! ÉPICO! MONUMENTAL! Sem dúvidas é a melhor faixa de todo o disco. A produção instrumental é maravilhosa, cria através de sua rotação pancada e do uso de pianos uma ambientação mais positiva e pra cima, em contraste com o restante do disco. Você não dá nada pela música, até o momento em que Tupac entra cantando, momento em que o instrumental se transforma pra valer. Foi o terceiro single de 2Pacalypse Now. Shakur cospe versos com uma tranquilidade assustadora, falando sobre seus amigos, os apoios, a irmandade mútua. Um tipo de música que acaba fotografando tudo o que o "Hip-Hop" era naquela época, em termos de unidade lírica, musical e cultural.

10 - Brenda's Got A Baby

O segundo single do álbum, que descreve a história de uma jovem solteira que engravida e se torna mãe, sem marido para ajudar em casa. Este tipo de problemática infelizmente soa normal e recorrente em nosso tempo. Mas é no lar, com famílias quebradas, que começa a ruptura da sociedade. 2Pac captou isso em seu primeiro álbum porque viveu isso. Por essas e outras tantas que ele era um homem a frente de seu tempo.

11 - Tha' Lunatic

Vou aproveitar essa ótima faixa pra falar sobre a participação de Stretch, que foi um grande amigo e apoiador de Tupac Shakur até 1994, quando 'Pac levou 5 tiros no saguão de um prédio em Manhattan. Stretch arrebenta nos vocais, era um MC bem consistente. Tupac mantém seu nível nesta música, que tem mais daquela característica genuína da velha-escola; com os instrumentais em ritmos mais acelerados.

12 - Rebel Of The Underground

Essa música trabalha mais o campo lírico. Tupac descreve suas qualidades enquanto MC, fala sobre a arte das rimas, sobre seus amigos de Oakland, sobre o submundo de uma maneira geral com a ótica de alguém vivendo a plenitude musical. Mais uma vez ele aproveita pra xingar a... Adivinha? Já deveria estar preso este meliante por tanto desacato (haha)!

13 - Part Time Mutha

BRILHANTE! Tupac teve a audácia de samplear o clássico Part Time Lover de Stevie Wonder. A música fala sobre a necessidade que ele tinha em ter uma mulher que dividisse seu tempo com ele, mesmo dentro de toda a loucura em que ele se encontrava. Conta com a participação da desconhecida Angelique, e encerra o álbum de maneira espetacular.

CONCLUSÃO E LEGADO

Incrível como eu ainda não possuo este álbum em sua versão original, ao contrário do resto do acervo de Tupac Shakur. O encontrei disponível uma vez, no Centro, há anos atrás. Não comprei, e me arrependo. É um típico álbum que consegue reunir características especiais do Hip-Hop enquanto cultura em sua ambientação. Tratou de questões sociais como nunca, e aprofundou o impacto e o potencial da música Rap não apenas nos bairros, como na sociedade como um todo, chegando a incomodar um vice-presidente dos EUA - e isso não é POUCA COISA. Se teve um lançamento especial em 1991, sem dúvida alguma foi 2Pacalypse Now. O álbum entrou pra história como um clássico, não apenas pelo teor e profundeza de suas músicas, como por principalmente... Ter colocado no cenário um desconhecido e jovem Tupac Shakur, homem que dali há 5 anos iria mudar para sempre a história do Hip-Hop, a forma como se conduzia o Rap enquanto ferramenta musical, e toda a estrutura mercadológica do jogo.

2Pacalypse Now é uma obrigação no item de qualquer colecionador.

Faça como eu fiz um dia, crie vergonha, e pelo menos baixe isso fazendo o favor!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

WGI (Consciência Humana) & Karol (Realidade Cruel) - Bonnie & Clyde (São Paulo, SP, Brasil. 2014)


Já está disponível nas ruas a mixtape produzida pelo DJ Bola Oito, do Realidade Cruel, chamada "Dois Contra o Mundo". Uma das faixas conta com a participação do veterano WGI, do Consciência Humana, em parceria com a Karol, também do Realidade Cruel. A música se chama "Bonnie & Clyde", e não haveria referência melhor para tratar uma dupla composta por WGI e Karol nos microfones.

A música é foda, uma verdadeira pancada nuclear e criminal nos falantes. É mais daquele bom e velho material Gangsta com a mesma qualidade e originalidade que estes grupos sempre propuseram ao longo de suas respectivas carreiras. Nas mãos destas pessoas, o Rap Nacional pode ressurgir com mais força em meio à desolação cultural proposta por coisas como temas de novela ou sertanejos ou funks. Falaremos sobre isso um outro momento.

O fato é que a música Bonnie & Clyde também serve como cartão de visitas para ir atrás da mixtape Dois Contra o Mundo. Tome vergonha na cara, faça um favor aos seus ouvidos, e baixe esta pedrada... CH & RC.


Tijolada disponível aqui!